domingo, 11 de outubro de 2009

As arrumações dão nisto

O passado é como um filme que nos marca. Há diálogos que ficam, cenas que não se esquecem, mas há também partes do argumento que se perdem para sempre. Os preparativos para a viagem. O recinto, o palco de betão, o PA e as vacas; a tasca café ou o café tasca exemplar único. A ponte romana e as vezes que por lá passámos. A compra do pin e a frase “Na cerveja tudo se aproveita, o que vai fora é...porque não se aproveita”;
Povo que lavas no rio… cantava-se este fado a todo o pulmão sem coletes de forças, desafiando os cavalos da Guarda Nacional Republicana. Era uma tímida tentativa, mas revelou-se irreversível. 11 anos volvidos… repetiu-se o Festival de Vilar de Mouros. Os cavalos da GNR continuavam no recinto mas o povo era agora livre. Fumava, bebia, cantava o que lhe apetecia... A liberdade tinha chegado! Mas, oh ironia!, há certos hábitos que demoram a desaparecer. Um povo não se molda assim, de um momento para o outro. A liberdade tinha chegado, aí estava, mas o Povo continuava, orgulhosamente, a lavar as suas meias no rio... Coura! O nudismo. O manifesto anarquista. Os cães-polícias “constipados”


Loucura! Loucura! Loucura controlada... sem medicamentos... sem camisas de força! Loucura controlada pela vossa inteligência e pelo amor! Adeus, adeus... obrigado, obrigado!...” Com estas palavras épicas declarou-se aberto o festival de Vilar de Mouros de 82, pela voz do dr. Barge, essa mistura deliciosa de português à moda antiga e de louco sem idade. 22.30 de dia 31 de Julho. O arranque do festival sem “heróis”. Echo & The Bunnymen, a bandazinha, não desiludiu. Noite dos Stranglers. A folie do bagaço. O rio e o povo que nele lavava e se lavava; O acampamento com uma tenda da concórdia; os pequenos almoços após um refrescante banho no rio cosmopolita rio. O ambiente WoodStock. A alimentação variada. Pão, salsichas, cerveja, atum, cerveja, pão, salsichas, atum e muito pão com alguma cerveja; as constantes mudanças de programa. As caminhadas interrompidas por boleias difíceis entre Vilar e Caminha. A banda muito pouco conhecida com um nome pouco promissor U2 mas com bons músicos e com um vocalista com o estranho nome de Bono. O check sound dos U2!!!! Este grupo só tem um álbum publicado em Portugal, mas tem uma força incrível, ou me engano muito ou ainda vão dar que falar. – disse-me um amigo. O “show” Bono Vox. Victorino d’Almeida ao piano de casaca contrastava com a poeirada que se erguia no ar e nos impestava a todos de alto a baixo. Zés Pereiras, os seus tambores, o seu ritmo, a sua exuberância contagiante, tão próxima do rock. The Gist “gravados” e o bombardeamento de espigas. O vocalista atingido; Jafumega, a primeira banda portuguesa a subir ao palco. .Johnny Copeland, o blues do Texas. E Jazz, não me lembro o quê. Rão Kyao, que teve a sua actuação conturbada por confusões protagonizadas pela GNR e penetras. A beleza do silêncio. O encanto de Durutti Column, a música do tempo interior, apaziguante e bela, comovente e frágil. “Mini”-GNR com a presença e força cénica e interpretativa de Rui Reininho.

Foi assim o “filme” de Vilar de Mouros’82

O “meu” festival…

1 comentário:

Joaquim Margarido disse...

Este foi o "meu" festival", também. O seu jazz, que não se lembra, chamou-se Sun Ra Arkestra (assim mesmo), e nem era exactamente Jazz. Era ainda mais que isso. E as palavras do Barge foram imediatamente contestadas, e bem, pelo António V. d'Almeida. Furioso, deu uma entrevista a uma qualquer estação de rádio contrapondo "Responsabilidade descontrolada" à loucura controlada do médico (de resto, um homem de outro mundo, e ainda bem). Quem tinha razão? Os dois, claro.